Ela, o hotel e a escritora

 Meu pai trabalhou por quase 40 anos no Hotel Glória, um patrimônio da minha cidade. Quando pequena, eu o acompanhava. E, para não incomodar os hóspedes, meu pai dizia: “Fique quietinha lá na biblioteca.” E lá eu ficava. Rodeada por livros pesados, de capa dura, ainda sem saber ler, mas já aprendendo, desde cedo, a me deliciar com as palavras.



A biblioteca era meu refúgio, meu espaço secreto. Sentia-me dona daquele palácio, descia as escadas de carpete vermelho, subia nos elevadores antigos e caminhava com uma curiosidade imensa, como quem se apodera de um pedaço de um mundo tão vasto. Conheci muitas pessoas naquele hotel, entre elas, a grandiosa Lygia Fagundes Telles. Eu, pequena, inocente, ou até audaciosa, escrevi algumas palavras para apresentar a ela, achando que tinha ali escrito “um miniconto”.


Ela, atenciosa e simpática, leu, sugeriu algumas palavras, e conversamos como se fôssemos velhas amigas. Eu, uma criança, e ela, já imensa em sua sabedoria e grandeza. Não sabia,  então,  o quão grandiosa ela era, mas a sensação de estar ali… me acompanhou por toda a vida. 


… continuei escrevendo… 

imersa em meu amadorismo e rabiscos…  que não  são apenas palavras soltas, mas histórias que moram dentro de mim e que tento transformar em algo que faça sentido(para mim e para quem me lê). 

Junto palavras aqui e acolá, como quem costura as partes de um todo, e aprendi, com o tempo, a costurar minhas dores com linhas duplas, a encontrar resiliência frente a elas.

A curar-me… a perdoar até as mais cruéis e fantasiosas verbalizações… 

Porque sempre será sobre quem sou… e não como o outro me vê ou “me desenha” 


Aprendi,  também, que algumas dores são  inevitáveis, mas o que nos define é o modo como escolhemos lidar com elas. 

Lygia me ensinou que a vida é sobre aprender a resistir, a reconstituir-se… a ser fiel a quem somos… Aprendi a não ferir ninguém com a minha dor, a respeitar o tempo do outro, a ser o melhor que eu puder, e, mais importante, a transformar o sofrimento em aprendizado.


Hoje, ao lembrar daquele encontro, percebo o quanto a gentileza da majestosa Lygia ensinou-me sobre a resiliência diante das dores… 

a pureza e leveza… a ser sempre fiel a nossa essência… 

Sigo escrevendo, concatenando as ideias… costurando-as, despretensiosamente… buscando fazer com que os meus rabiscos, carregados de histórias e aprendizados, encontrem seu lugar no mundo. 

Daniela Gatolini

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