Conta Gotas


 

Quando eu era pequena, ansiava pelo fim do xarope, sorine ou outro medicamento para “ganhar” a embalagem que vinha com um conta gotas… após desinfetar o recipiente, preparava o meu remédio caseiro ( água com açúcar) e  “medicava” meus pacientes com a fórmula milagrosa que curava as dores da alma, as tristezas e as mazelas do corpo...

Rememoro com clareza um episódio… 

Eu aguardava ansiosamente meu pai chegar do trabalho para “ouvir atenciosamente “ sobre o seu dia e suas dores. 

E então logo receitava ( prescrevia)  três gotas “do remédio da Dani” após um longo e afetuoso abraço… além de fazer o seu cabelinho… 


E ele - aceitava vestir  o personagem que lhe era imposto… e bebia o “remédio”... Eu, enfática, dizia que  ele só poderia ingerir 3 gotas e nada mais, uma vez que o excesso... causaria uma  superdosagem... e   possivelmente o  levaria  a óbito ou excesso de risos! 


Meu pai engolia as gotinhas... retribuía a atenção e logo dizia estar bem melhor e totalmente livre do mal estar que o acometera minutos antes! 


Engraçado que quando somos crianças nos sentimos capazes de curar as dores alheias, seja através de um abraço, um chazinho da tarde ou de “um remédio” de mentirinha...  a ao nos tornarmos adultos, somos envoltos numa armadura que não nos permite gestos afáveis, inocência e pureza...


Rogo humildemente para que se mantenha preservada no decorrer da segunda metade da minha vida,  a capacidade de emocionar-me... a paciência para gerir os obstáculos... a empatia necessária para continuar me importando com os outros...  

a pureza na alma e a conservação da minha fé...

E ainda que eu não possa sanear e  suplantar totalmente as dores físicas, do corpo e da mente  dos meus entes queridos, amigos e amores...  que eu possa pelo menos ofertar o  meu amor, o meu tempo, a minha escuta atenciosa e a serenidade do meu ser  em conta gotas  e sempre!

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